Pinceladas de violência
Tempos atrás, estava me perguntando de quais formas ela se manifesta pois acredito que os bandidos e seus crimes sejam apenas uma parte da questão. Semana passada presenciei uma cena que respondeu às minhas perguntas. O lugar não poderia ter sido melhor escolhido pelo destino: uma escola pública num bairro pobre de uma cidade da Grande São Paulo. Só para cituar alguns de meus leitores: sou prestador de serviços para a rede pública de Ensino (e também empresas privadas) na área de informática. Estava nesta escola apresentando um orçamento. Já estava recolhendo minhas coisas quando chegou a diretora da escola. Uma senhora respeitável, de gestos abertos e sorridente. Percebe-se nela os longos anos dedicados à educação. O que não se percebe à primeira vista é o
quão violenta pode ser esta pessoa...
Tão logo a diretora chegou, uma aluna bateu à porta querendo lhe falar. Foi recebida pela secretária da escola:
Secretária: Sim ?
Aluna: Sabe que é? Eu queria pedir transferência !
Secretária: Mas menina, o que aconteceu? Você não chegou na escola um dia destes ?
Aluna: Foi, mês passado !
Secretária: E já vai pedir transferência outra vez ?
Nesse ponto, a diretora que apenas ouvia disse, sem sair de sua mesa:
- Vai pra onde ?
Aluna: Vou voltar pra SP, na casa de meu pai !
Diretora: E sua mãe, cadê ela ?
Aluna: Não tenho mãe. Ela morreu. Morava aqui com minha irmã e meu cunhado e vou voltar para SP pra casa do meu pai.
Diretora: E tá voltando por que ?
Enquanto eu arrumava minhas coisas ia prestando atenção nesse papo. Depois dessa pergunta, a garota ficou calada uns instantes, transtornada, olhou para mim, para a secretária e respondeu:
Aluna: Com as chuvas da semana passada, a casa de minha irmã desabou. . .
Diretora: Ué! E foi só a sua parte da casa que caiu? Por que sua irmã não vai com você ?
Aluna: Ela é casada e trabalha, eles pra onde ir, eu só tenho meu pai.
A diretora vira-se para a secretária:
Diretora: Faz o papel de transferência e faz ela assinar ai que é a última transferência que ela pede. Não tem volta. Isso é coisa de cigano.
Aluna: Eu não tenho culpa, são as circunstâncias !
Diretora: Ciganos. É coisa de cigano.
A aluna pega o papel e se retira.
Quantas vezes acham que isso acontece durante o dia? Qual o impacto no estado de espírito de uma pessoa já humilhada por sua condição
de pessoa pobre e mais ainda por ter perdido a casa ?
Dentro da idéia de que a violência tem várias formas, quem foi mais violento: a secretária que calou-se e não mandou a diretora fechar a boca ? Eu, que antes de ser um técnico preocupado com meu serviço, deveria ter sido um cidadão e apresentado uma denúncia aos orgãos competentes ? A chamada "diretoria reginal de ensino" (onde também presto serviço) que já conhece outras histórias dessa mesma diretora e nunca tomou providências para bani-la da educação ?
Será que muito da evasão escolar (tão combatida) não é também fruto dessa humilhação à que são
expostos os alunos? Haverá estatísticas que demonstrem isso ? E, se mais tarde, um destes ex-aluno torna-se um marginal e volta-se contra a sociedade que o humilha e acaba por assassinar alguém, deve ele ser severamente punido ? Certamente que sim. A questão é que a violência pode, em muitos casos, ser eliminada antes mesmo de surgir.
domingo, 20 de abril de 2003
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