domingo, 11 de abril de 2004

Cotas para negros nas universidades.

Lá vou eu 'descer a lenha no governo', uma vez mais!
O assunto de hoje já teve seu artigo aqui no ágora mas como o governo o coloca na "pauta do dia" novamente então se faz necessário retornarmos a ele.

Com sérias dificuldades para fazer com que opinião pública, imprensa e oposição esqueçam os acontecimentos do "Caso Waldomiro", o governo tenta desviar a atenção de todos para outros assuntos e achou que seria uma boa idéia voltar a falar da cota para negros nas universidades (plano do governo que obriga as universidades a reservar 20% das vagas disponíveis para pessoas de cor negra).

Ao que parece, o governo PT ainda não percebeu que, na posição em que estão deve tomar muito cuidado com o que diz que vai fazer pois a linha que os coloca entre o sucesso e a mediocridade &eaacute; extremamente frágil.

O plano de cotas para negros não traz justiça ! Antes disso, cria outras injustiças e coloca as pessoas de cor negra em situação delicada. Algumas questões não são respondidas, por exemplo:

  1. O que define que alguma pessoa seja negra?

  2. Muitas pessoas com a pele 'morena' podem se auto-denominar 'negras'. Qual é o critério ?

  3. O que o projeto diz sobre pessoas de cor branca, pobres ?

  4. Entre o ministro da educação e seus assessores deve-se comentar o seguinte: "não temos tempo para detalhes agora".

  5. E as faculdades particulares?

  6. Verdadeiras 'aves de rapina' que visam somente o lucro, certamente esperam ser compensadas por este prejuízo. E esta compensação terá respaldo constitucional pois, segundo a constituição vigente, o estado não pode causar prejuízos à iniciativa privada e ao cidadão.

  7. E o aluno em si?

  8. Como um aluno negro, que entrou graças ao paternalismo do governo será visto pelos outros que não foram contemplados ? E o mercado de trabalho (afinal, tudo se resume a ele, certo?) ? O governo vai criar que mecanismo para garantir que uma pessoa seja contratada por sua qualificação ao invés da cor da pele? Só falta eles querem que estes mesmos 20% sejam automaticamente reservados, também pelas empresas. Ai sim, aquele preconceito velado,hipócrita, estoura de vez !!!!


Tenho pouca esperança que alguém no governo encontre respostas para estes, e outros pontos. Se houver algum resquício de bom senso neste governo ele devem é abandonar a idéia. E sabemos que isso não vai acontecer.

2 comentários:

sergio dias disse...

Atualmente ouvimos dos defensores do mito da democracia racial brasileira a idéia de que superaremos a grande desigualdade racial brasileira através da melhoria da educação. Dizem eles que como não temos problemas raciais no Brasil facilmente sairemos deste abismo em que nos encontramos se tivermos uma escola pública de qualidade, isto é, com professores bem pago e de excelente formação, uma boa infra-estrutura física e logística nas escolas, acesso a todo tipo de tecnologia educacional possível aos alunos no universo escolar e horário integral.

Esta proposta se encarada com seriedade merece de todos nós aplausos e apoio. Embora não acredite que venceríamos todos os problemas sociais apenas com a democratização da estrutura educacional brasileira, devo reconhecer que seria um passo importante para desmontarmos parte do apartheid social e racial existente. Seria fantástico se pudéssemos ter nossas escolas públicas funcionando dessa forma e ver nosso filhos tendo a oportunidade de aproveitar desse direito básico estabelecido constitucionalmente.

Entretanto, se fizermos uma digressão histórica veremos que esta proposta de educação é filha de uma época determinada, e mais, de uma estrutura de Estado determinada. Um Estado que surgiu a partir de um acordo de classes instituido numa Europa arrasada pela 2 Guerra Mundial e sob a ameaça da expansão soviética. Nestas circunstâncias, uma burguesia débil e temerosa aceitou melhorar as condições de vida da população em geral, em troca do abandono, por parte dos trabalhadores, dos ideais comunistas e da sua militância em partidos operários. Daí nascem a social-democracia e o Estado do Bem-Estar Social, o "Welfare State", que pretendia prioritariamente combater a miséria e garantir direitos como moradia, saúde, educação, previdência e o emprego. Após a instauração desse acordo temos, como bendisse Hobsbawn, "os 25 anos áureos do capitalismo".

Hoje, infelizmente o "Welfare State" vem sendo destruído pela burguesia, e o que restou em muitos países são escombros. Basta observarmos o exemplo francês que recentemente passou por uma grave crise com a revolta de jovens imigrantes contra a situação atual, sobretudo, do sistema educacional francês e a falta de oportunidade de empregos e sua conseqüente precarização. Na Europa, somente os países nórdigos mantêm a duras penas e sob forte crítica burguesa e com muitos desvios a estrutura construída a partir do "Welfare State".

A nova centralidade do Estado, estabelecida a partir dos governos Thatcher e Reagan e que se universalizou com a derrubada do muro de Berlim e a queda da URSS privilegia não mais a atenuação das desigualdades, mas pelo contrário, o aumento delas, introduzindo a competição como um fator de progresso para toda a sociedade. Em suma, o neoliberalismo, a que estamos submetidos tirou da página da história do capitalismo qualquer retorno as proposições sociais-democratas e de seu Estado do Bem-Estar. Neste sentido, qualquer sugestão, no âmbito do capitalismo, em particular brasileiro, levando em consideração o histórico de atrocidades cometidas por nossas elites, que apresente a educação como saída se converte em engodo, em falácia, em ideologia pura.

Historicamente, o movimento negro e os movimentos sociais no seu conjunto vêm discutindo a problemática racial e propondo soluções para essa questão. Reconhecemos a luta pelo socialismo como um aspecto fundamental para transformar esta realidade. Contudo, não podemos deixar de lado os elementos específicos que enfrentamos.
Há muitos que vêem as ações afirmativas como proposições equivocadas e como remissão do capitalismo para um de seus problemas estruturais, visto que onde há capitalismo, há racismo. Mas temos que vê-las de outra forma, como proposições nossas, surgidas a partir de nossos enfrentamentos e como conseqüência deles. Há bastante tempo, o movimento negro, com a solidariedade de outros movimento sociais, traz a reparação racial como elemento essencial de nossa luta e è importante que não esqueçamos disto. Precisamos compreender que esta proposta sai das entranhas do movimento, de nossos embates, de nossas tensões, de nosso choro, alegrias e sofrimentos. Querem nos convencer de que essa proposta é alienígena, estrangeira, anglófila, mas isso não e verdade.

Por fim, gostaria de lembrar que há um Estatuto da Igualdade Racial a ser votado no Congresso Nacional e de que precisamos, antes de tudo, de unidade nesta guerra, e que sem ela, não chegaremos a lugar algum, é fundamental convencermos a sociedade brasileira de que teremos um país melhor e mais justo se conseguirmos aprová-lo.
www.pelenegra.blogspot.com

Marcus Mortago disse...

Sei.
Constituição da República Federativa do Brasil.
Art 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos:
[...]
I - a soberania;
II - a cidadania;
III - a dignidade da pessoa humana;
IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;

Ainda na constituição federal
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:

Não acho necessário reproduzir todos os incisos e parágrafos deste artigo. Só chamo a atenção para um detalhe: já reparou que o art 5º começa com a palavra "todos"? E que ela quer dizer - expressamente - qualquer pessoa?
Reparou também que a palavra "todos" está associada à "são" (no sentido de 'ser' alguma coisa' e "iguais" (no sentido de que não há diferença).
Diante disso:
1 - É inegavelmente inconstitucional as tais cotas.
2 - Não se garante coisa nenhuma a tal "igualdade". Mas se garante o triste discurso "os negros entraram na faculdade pq o governo obriga. Não fosse isso..."
3 - Estatuto da igualdade? Tenha dó. Uso de todas as minhas prerrogativas de cidadão E eleitor para pressionar o deputado federal em quem votei, o senador (e bem como seus partidos) a não votar uma excrecência dessas em hipótese alguma.
4 - Estão em guerra é? Boa sorte! E, antes que eu me esqueça: não contem comigo.