domingo, 11 de janeiro de 2004

O ensino inútil

Recentemente fui lembrado de uma das coisas que mais abomino e condeno no âmbito do ensino superior (além de sua utilidade prática): o vestibular. Reconheço a dificuldade em se adotar algum processo que dê conta da demanda de novos alunos ao Ensino superior mas, das maneiras possíveis, percebe-se que o processo de vestibular é a mais estúpida a que, intencionalmente, visa restringir o acesso às faculdades.

Não consigo ver nenhum benefício para o candidato com o vestibular. Na verdade, eu só consigo reconhecer um beneficiário: os cursinhos pré-vestibulares. Verdadeiros caça-níqueis, estas empresas especilizaram-se em tirar dinheiro de seus clientes. As pessoas foram encorajadas, de fato fizeram com que elas acreditassem, que os cursinhos pré-vestibulares são o único caminho para se ingressar no universo do ensino superior. A inutilidade destas empresas é facilmente perceptível: quem nunca recebeu um daqueles e-mails em que as mais estapafúrdias respostas, tiradas de provas vestibulares, são dadas pelos alunos? E as redações? A cada dia o bom uso da língua se degrada. Claro que, se alguém tentar pressionar algum curso pré-vestibular quanto à estas questões receberá deles, como bons malandros que são, a seguinte resposta: "Nos limitamos a reforçar o conhecimento o que o candidato, presume-se, já possui. Não podemos querer ensinar "do zero" para ninguém". É uma resposta que, em eventuais contendas judiciais, fará o maior sentido e poderá colocar por terra qualquer argumento do lesado, digo, candidato. Mas, na prática, tal resposta aponta a total incapacidade destas empresas no caráter pedagógico. E o mais assustador é que agora elas deram para inventar "sistemas de ensino" e entopem as escolas particulares com "modelos avançados de ensino".

Voltando ao vestibular, a pessoa com quem conversava estava dizendo que a prova tinha o seguinte sistema: para cada questão errada anulava-se uma correta!!! Uau ! Ao fazerem isso eles assumem o papel de "seres supremos, detentores do conhecimento máximo e inequívoco". Quando a prática mostra que o ensino superior no Brasil, confunde-se, muitas vezes, com a cultura inútil das tardes televisivas de domingo.

Há algumas iniciativas do governo federal no intuito de humanizar o acesso ao ensino superior. Mas foi duramente criticado pelos tais "movimentos estudantis". E o que são movimentos estudantis? Servem para cobrar uma grana violenta dos alunos e fornecer uma carteirinha para pagar meia entrada em cinema. Recebem também repasses do governo federal e são "massa de manobra" para políticos ou grupos econômicos. Como? Quando o governo instituiu pela primeira vez o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) estes movimentos estudantis fizeram grande escândalo, sem fundamentar exatamente o motivo. Percebeu-se, mais tarde, que estavam sendo incentivados pelos cursinhos pré-vestibulares que viam no ENEM uma ameaça ao lucrativo mercado vestibular.

É difícil também tolerar o ministério da educação aceitar que uma faculdade/universidade, registre-se como "entidadade sem fins lucrativos" e não perceber que as mensalidades são reajustas anualmente (até mensalmente!!). Se é particular, o objetivo é o lucro. Isto é óbvio, nenhuma (NENHUMA) faculdade particular têm a formação dos alunos em primeiro lugar! Antes disso vem o lucro, a aplicação dos lucros, depois o pagamentos de seus custos e, depois, a preocupação pedagógica. Então por que permitir que se auto-denominem sem fins-lucrativos? Por que beneficia-los com a isenção de impostos, enquanto que quem paga tem um teto ridículo para ser abatido no imposto de renda???

Enfim, chega a ser nojento esse aclamado "acesso à vida acadêmica". Muita coisa está muito errada. Há muita gente desonesta metida nesse meio, que coloca seus próprios objetivos de lucro acima do conhecimento. Há que se tirar deles este poder de controle sobre o ensino.

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